O ego nos negocios: o inimigo invisivel

por Francisco Santolo

Levo duas decadas observando o mesmo padrao: empresas imparaveis, lideres brilhantes, crescimento continuo. E um inimigo silencioso que nao aparece nos balancetes mas destroi a partir de cada decisao.

O ego nos negocios: o inimigo invisivel

Levo duas decadas observando o mesmo padrao.

Empresas imparaveis. Lideres brilhantes. Crescimento continuo de dois ou tres digitos. Expansao para novas areas. Forte visibilidade nas redes sociais e na midia.

Muitas vezes basta um unico choque. Ou que venha a luz o que nao se ve. Para que comece a queda.

O inimigo silencioso ja esta atuando. Nao aparece nos balancetes nem nas metricas, mas destroi a partir de cada decisao. E prepara as bases para uma situacao irremediavel.

O ego costuma despertar nos momentos de "sucesso". Quando as vendas crescem, quando chegam os reconhecimentos, quando o mercado aplaude.

E natural. E humano. E nao e tao intuitivo quanto imaginamos. Nem tao detectavel.

Deixamos de ouvir. Dedicamos menos tempo a aprender. A velocidade comeca a superar as validacoes. O que antes questionavamos passa a ser certeza. Nao ha tempo--precisamos escalar. As oportunidades se multiplicam.

Me considero um especialista em crises.

Muitas empresas me chamam para acompanha-las quando percebem que a escala se transformou em queda livre.

E em grande parte dos casos, nao falha o modelo de negocio, nao foi a execucao, nao foi o produto. Mas sim a capacidade de aceitar e gerenciar informacao desconfortavel.

Alertas foram ignorados, vozes criticas foram desconsideradas.

Multiplicaram-se as mas decisoes ao se afastar do foco: sobreinvestimentos, expansoes sem base, projetos defendidos mais por desejo ou obrigacao de "escalar" e "aproveitar as oportunidades" do que por logica de negocios.

O ego transforma aprendizados necessarios em erros repetidos.

Nao so prejudica negocios. Rompe vinculos. Fratura sociedades na necessidade de "ter razao" (ou defender decisoes insustentaveis). Corroi a cultura.

As equipes valiosas sao as primeiras a percebe-lo. E a ir embora.

Ou pior, compram a narrativa e multiplicam o ego. Compram a historia de invencibilidade e sustentam o fundador.

Quando se quebra o capital social--essa rede de confianca e colaboracao que sustenta todo negocio--, nao ha capital financeiro que possa compensa-lo.

Em agosto, trabalhamos no Scalabl Books sobre How the Mighty Fall de Jim Collins.

Este livro oferece um marco brilhante para descrever o fenomeno.

Collins descreve cinco etapas de declinio organizacional. E embora fale de grandes corporacoes, qualquer um de nos pode se reconhecer nelas.

1. Soberba nascida do sucesso (hubris). Tudo comeca aqui. Justamente quando o ego comeca a se alimentar: as conquistas se convertem em sensacao de invencibilidade. Deixamos de nos perguntar "por que nossa estrategia funcionou" e damos como certo que e fruto exclusivo de nossas decisoes ou, pior, de nossa "genialidade". Vejo isso em muitos empreendedores que, apos o primeiro sucesso, quando o dinheiro comeca a entrar, deixam de validar e se agarram a intuicao. Mas tambem em empresarios. E muito mais forte em empresarios com modelo repetivel, que assumem que vai se repetir para sempre.

2. Busca indisciplinada por mais. O ego pede expansao. Mais mercados, mais produtos, mais escritorios, mais pessoas. Mas como adverte Collins, nao e o crescimento que destroi, mas a falta de disciplina nesse crescimento. Nao so as multinacionais, muitos donos de PMEs caem nessa armadilha: decidem abrir varias filiais seguindo um plano rigido, ampliam a fabrica fazendo uma projecao linear ou exponencial do crescimento que vivem, multiplicam os lancamentos de produtos, "fortalecem" a estrutura para profissionalizar antecipando o crescimento futuro. A Lei de Packard que Collins apresenta e implacavel: nenhuma empresa pode crescer mais rapido do que sua capacidade de desenvolver pessoas capazes de sustentar esse crescimento.

3. Negacao do risco e do perigo. Quando os problemas aparecem, o ego os disfarcia. Os numeros sao reinterpretados de forma otimista, buscam-se culpados externos, apostam-se recursos em projetos distrativos. Constroi-se a narrativa de invulnerabilidade que facilita ignora-los. E a cultura de nao questionar. E o autoengano em acao. Collins menciona o caso classico da Motorola com o Iridium, seguindo o plano rigidamente, ignorando a evolucao do mercado e que sua proposta de valor ja nao fazia mais sentido.

4. Tentativas desesperadas de salvacao (buscando o heroi). Quando o declinio e evidente, o ego entra em panico. Aparecem as "balas de prata": contratar o "CEO salvador", apostar tudo em um produto milagroso, fundir-se sem criterio, adquirir uma empresa em outra industria. Tudo menos voltar ao core, enfrentar o problema real, comecar a tomar um continuo de decisoes acertadas. E tentar se salvar da falencia jogando roleta. Querendo se recuperar em uma unica mao. Corporacoes que lancam reorganizacoes freneticas para "mostrar acao", enquanto perdem a essencia. Ou PMEs que aprofundam a queda entre discussoes familiares sobre qual medida desesperada tomar. Um ponto interessante e que Collins esclarece que ate esta etapa a recuperacao e possivel. Voltando ao seu conceito de flywheel (um volante de inercia, que se gira gradualmente, com pequenas decisoes continuas em uma direcao estrategica clara, primeiro com enorme resistencia, e depois acelerando com a propria energia gerada).

5. Capitulacao a irrelevancia ou a morte. A ultima etapa chega quando ja nao resta energia nem recursos. A organizacao desaparece, e vendida ou subsiste sem relevancia. E embora pareca extremo, ja vi pequenas empresas chegarem la muito antes do que imaginavam.

Se o que voce esta pensando e: eu pratico a humildade, os outros me importam, nao acredito estar em uma postura de ego, apenas me baseio nos dados da realidade do que funciona, vou lhe contar algo muito importante:

O ego nao e unicamente colocar-se no centro ou sentir-se mais importante que os demais.

Com a expansao global da Scalabl em 2018, vivi na pele a etapa de "soberba nascida do sucesso". Abrimos em 20 paises presencialmente em 2 anos e nos preparavamos para chegar a 50 no terceiro. Eramos enormemente rentaveis. O modelo estava blindado. Aplicava nossa propria metodologia, focada em reduzir riscos.

A literatura de negocios costuma dar como certo que se deve acelerar uma vez que o modelo escala e se repete de forma rentavel. Mas foi escrita para outra epoca, nao preve grandes choques ou interrupcoes.

Dois grandes problemas societarios e uma pandemia me demonstraram que a expansao e o crescimento trazem enormes riscos.

Conselho importante: O hubris, como Jim Collins chama em ingles, se traduz melhor como desmesura, nao como soberba. E fundamental continuar validando sempre e nao perder o foco. Trabalhar com modelos de negocio e operacionais resilientes ou antifrageis.

A desenvolver essa nova teoria me dedico desde entao.

O livro de Collins confirma que a queda nao se deve a fatores externos inevitaveis, mas a decisoes internas, humanas, evitaveis.

O ego pode nos confundir, especialmente no melhor momento. Pode estar fazendo isso agora mesmo. Pode arrasar com o que construimos. E com o que e mais importante para nos alem da empresa.


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