Boa Estratégia Má Estratégia: o que o diferencia de outros livros de estratégia

por Francisco Santolo

Muitos falam sobre estratégia. Muito poucos pensam estrategicamente. E quase ninguém te expõe como isso é formulado ou acontece na prática.

Boa Estratégia Má Estratégia: o que o diferencia de outros livros de estratégia

Muitos falam sobre estratégia. Muito poucos pensam estrategicamente. E quase ninguém te expõe como isso é formulado ou acontece na prática.

Até que Richard Rumelt apareça.

Ele não te pega pela mão. Dá a você um caminho de exploração e análise.

Ele não subestima você, nem escreve para todos. Suponha que você tenha estruturas internas e andaimes para apoiar o pensamento superior que ela oferece.

Evite fórmulas simples. As caixas para completar. Fuja dos objetivos SMART, da análise SWOT, das matrizes de crescimento e das etapas do tipo checklist...

Isso quebra tudo isso e deixa você sem respostas ou atalhos confortáveis.

Oferece um livro complexo e desafiador:

Rumelt mostra como pensa um estrategista... e te deixa sozinho, nu, na frente do espelho.

Pensar estrategicamente – de Rumelt – é comprometer-se com uma leitura própria, desconfortável e corajosa do terreno.

Por que tanta estratégia parece boa e não funciona?

Porque é mal conceituado e compreendido desde o início.

E porque há uma série de incentivos que a distorcem:

* A necessidade de mostrar ação imediata.

* A pressão para parecer bem aos investidores ou conselhos de administração.

* O desejo de vestir qualquer iniciativa como estratégica para ganhar legitimidade interna.

O resultado é previsível: desejos ou visão são confundidos com diagnóstico. Objetivos com decisões reais. Slogans com design.

E o mais grave: o verdadeiro problema não é abordado. Ele se cerca. Ele se disfarça. É composto de eufemismos e filmado com ações dispersas.

É isso que Rumelt define como Má Estratégia: Uma ilusão de clareza, carregada de valores, frases coloridas e palavras politicamente corretas... ...mas sem foco, sem direção real, sem um sistema que gere efeito.

E isso – para ser honesto – é o que se repete em muitos planos corporativos, apresentações estratégicas e roadmaps de startups, impulsionados por um ecossistema que prioriza rodadas contínuas em vez de atualização metodológica para criar empresas reais.

Ecossistemas inteiros que levam os seus fundadores a copiar a forma, sem questionar a substância.

Ou corporações onde o diagnóstico e o foco da estratégia se diluem em nome da inclusão, porque todos devem contribuir com alguma coisa, e ninguém ousa dizer: isso não bate.

&touro; ? O que torna este livro diferente?

Na minha opinião, três coisas o destacam:

1. Estratégia como desenho sistêmico, não como plano

Não se trata de ter muitas ideias. Trata-se de desenhar uma estrutura estratégica viva, onde cada parte se encaixe, reforce e multiplique o efeito.

* As ações não são a implementação – elas são uma parte central do design. Estão alinhados, alimentam-se mutuamente e reforçam a política orientadora.

* O foco não é um exercício de simplificação: é uma renúncia deliberada à concentração de poder.

* Procura-se um ponto de alavancagem quando uma intervenção bem concebida gera um impacto desproporcional. Essa é a verdadeira aposta estratégica, aproveitar as nossas vantagens.

O resultado não é um plano, é um sistema com forma, direção e tensão interna. Um design com o qual vale a pena se comprometer.

2. Guias políticos como hipótese, não como slogan

O aspecto mais poderoso do livro – e provavelmente o menos compreendido – é que a política orientadora não é uma declaração inspiradora, nem uma promessa ambiciosa.

É uma aposta estratégica específica. Uma hipótese de ação sobre onde e como intervir no sistema para gerar o maior impacto possível.

Não é uma frase que soa bem. É uma decisão que concentra o esforço.

E como qualquer hipótese, deve poder ser testada.

* Deve ser claro o suficiente para avaliá-lo com fatos.

* Específico o suficiente para estabelecer o que fazemos e o que deixamos de fazer.

* Flexível o suficiente para se adaptar caso o contexto mude.

Uma boa política de orientação não lhe dá segurança. Dá a você uma direção clara enquanto você navega pela incerteza. Diz onde apostar e deixa claro tudo o que não faremos.

Esta forma de pensar a estratégia – como uma hipótese viva e não como uma afirmação estática – é transformadora.

3. O pensamento como disciplina

Rumelt não apenas desafia você a pensar bem. Exige que você reveja como você pensa.

* Evite fechamentos rápidos.

* Desative atalhos mentais (heurísticas confortáveis ??ou instaladas).

* Sustente a ambiguidade sem ceder ao cinismo.

* Formule suas próprias hipóteses e enfatize-as.

* Desenvolva estruturas internas que permitam enxergar sem depender de ruídos externos.

Porque pensar estrategicamente não é uma habilidade técnica. É manter a própria direção enquanto todo o resto se move. E para poder intervir, aja com clareza, mesmo quando não há certezas.

Não é um livro confortável (e tudo bem)

E ainda assim, é transformador.

Porque uma vez que você entende isso, você fica com uma pergunta que você não pode mais ignorar: o que estou fazendo é... uma estratégia real?

Algum livro já deixou você desconfortável em termos produtivos?

Um que te bagunçou e depois te deu mais clareza. Qual foi? Conte-me abaixo. E se este artigo ressoou em você, sinta-se à vontade para compartilhá-lo com alguém que esteja liderando...

Vejo você no sábado. E se não, continuamos lendo.


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